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Depressão melancólica já pode ser tratada com eficácia

Dr. Teng Chei Tung
Uma tristeza profunda, o ar de quem não se interessa pela vida exterior, a inércia, o olhar perdido no infinito. Quantas vezes personagens da literatura ou da pintura foram retratados assim, ou quantos artistas tinham comportamentos próximos disso. Pois bem, a chamada melancolia, tão apreciada pelo romantismo, pode ser na verdade um grave problema de saúde, um tipo de depressão que, boa parte das vezes, leva à perda da capacidade de sentir prazer na vida, com grande sofrimento para os portadores da doença, em especial, as pessoas idosas.  De acordo com o especialista em transtornos do humor, Dr. Teng Chei Tung, do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas, em São Paulo, é preciso distinguir a tristeza, uma emoção universal, do sofrimento representado pela depressão melancólica, que tem características incapacitantes e não pode ser controlada pelo paciente sozinho, necessitando de tratamento clínico. Segundo o especialista, há cinco tipos principais de depressão: a melancólica, a atípica, a psicótica, a sazonal e a ansiosa. Ele ressalta que a depressão melancólica é uma das menos conhecidas pela população. “Como pode atingir os idosos, é muitas vezes confundida como uma condição da idade, atribuindo sintomas da melancolia como esquecimento e desânimo a características da velhice, o que não é verdade”, diz. Até bem recentemente esses pacientes não procuravam os médicos psiquiatras - situação que vem mudando em virtude da maior aceitação dos tratamentos dos males da mente e da divulgação de informações, cada vez maior, a respeito dos mesmos. “Ainda assim, existem algumas pessoas com quadro de depressão melancólica não identificado”, afirma o Dr. Teng. De acordo com o psiquiatra, alguns sintomas clássicos desse tipo de depressão são os pensamentos negativos, a idéia de morte constante, um desencanto sem fim, tédio, uma inatividade forte e, principalmente, perda de apetite e insônia. Em relação aos outros tipos de depressão, tem uma "vantagem" para sua percepção: enquanto as demais podem ser mascaradas, a melancolia é indisfarçável, está constantemente presente no rosto e na expressão do doente. “Além do abatimento físico que todos notam em função do emagrecimento do indivíduo”, afirma o especialista. O Dr. Teng lembra ainda que os chamados "transtornos de humor" – diversas doenças associadas à depressão - são conhecidos há séculos. Hipócrates, o "pai da medicina", usou o termo melankolia, que significa "bile negra", para nomear um dos quatro humores que constituiriam o corpo humano (juntamente com a bile amarela, o sangue e a fleuma). O excesso de bile negra seria responsável pela tristeza e angústia que caracterizam a depressão. Números da Organização Mundial de Saúde afirmam que em algum momento da vida, em torno de 25% da população do planeta terão momentos ou fases de depressão. Se durante muito tempo a melancolia foi encarada como uma espécie de atributo cultural, a descoberta dos antidepressivos, na década de 50, significou um grande avanço no tratamento dos transtornos do humor. Observou-se que certas substâncias agem sobre outras que atuam no sistema nervoso, principalmente sobre a serotonina, que influencia o humor e controla a liberação de hormônios que mexem com a disposição, sono e fome, por exemplo. Distúrbios com a serotonina são característicos em deprimidos. Para o Dr. Teng são vários os fatores relacionados ao forte aumento de transtornos de humor observados nos últimos anos, como por exemplo, as pressões da vida moderna, o estilo de vida sedentário e o aumento do número de pessoas que usam medicamentos para emagrecer e drogas ilícitas. Como forma de tratamento ele recomenda o uso de medicamentos, associado à psicoterapia e exercícios físicos. "Os primeiros antidepressivos traziam muitos efeitos colaterais e até hoje a medicação deve ser acompanhada com cuidado e sempre pelo médico", explica o especialista. Atualmente, diz ele, novos estudos e descobertas fazem com que medicamentos atuem de forma mais segura nos diversos tipos de depressão. Já existem substâncias mais adequadas, em especial nos casos de depressão melancólica, que não tem efeitos colaterais importantes, pode ser associada a outros medicamentos (inclusive outros antidepressivos), não afeta a libido, nem o coração, com bom desempenho na recuperação do apetite e na melhoria do sono. Segundo o Dr. Teng Chei Tung, até hoje a mirtazapina tem sido sub-utilizada, em parte porque, até há pouco tempo, era um medicamento caro, sem muitas opções no mercado. Mas, atualmente, existem outros produtos com preço bem mais acessível permitindo uma utilização mais ampla e maior adesão ao tratamento. Assim, com mais informações, menos preconceito em procurar o médico para tratar do problema e com drogas mais eficazes e baratas, o especialista acredita que o tratamento da depressão melancólica deve obter maiores níveis de eficiência.  Afinal, pondera, é uma doença relativamente fácil de tratar, podendo ser, inclusive, bem controlada, desde que haja diagnóstico rápido e efetivo da doença. Para isso, o apoio familiar é muito importante, até para a percepção dos sintomas, já que exames clínicos normais não acusam o problema. Mais informações no IPQ - Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP.

Dr. Teng Chei Tung é Coordenador dos Serviços de Pronto-Atendimento e de Interconsultas Ambulatoriais do IPQ (Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo), Médico Pesquisador do GRUDA (Grupo de Doenças Afetivas do IPQ) e Doutorado em Psiquiatria.

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