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Desafios da doença renal crônica

Roberto Pecoits-Filho
A Sociedade Brasileira de Nefrologia (SBN) estima que existam 10 milhões de brasileiros com algum tipo de disfunção renal. No entanto, a maioria destas pessoas desconhece a sua condição, principalmente porque essa é uma doença assintomática. Ou seja, os sintomas só começam a surgir em uma fase muito avançada da patologia, quando o impacto na qualidade de vida já é grande.
Por ser uma condição silenciosa, a maioria das pessoas só procura o médico quando está no estágio mais grave da doença, com os rins paralisados, anemia e insuficiência cardíaca.  Esse problema recorrente de diagnóstico tardio faz com que a os pacientes iniciem o tratamento em salas de emergências de hospitais, onde a hemodiálise é o único método disponível. 
Diante deste cenário, podemos considerar a doença renal crônica como problema de saúde pública, visto que é uma doença comum (acomete 8% da população) e crescente (o número de pacientes em diálise cresce cerca de 7% ao ano). Outro agravante é que apenas uma pequena parcela da população acometida recebe acompanhamento devido à falta de programas de rastreamento.
Para se ter uma ideia, nos últimos 10 anos, o número de pacientes em diálise cresceu 115% (de 42.695 para 92.091). Em 2010, foram registrados 18.972 novos pacientes em diálise. Este número representa 20% do total dos pacientes em tratamento. A expectativa é de que este número cresça proporcionalmente ao aumento do número de casos de pessoas diabéticas e hipertensas.
Em relação ao acesso, o tratamento da doença renal crônica no Brasil ainda é precário especialmente pela falta de uma política de atenção integrada e falta de um programa nacional de rastreamento e detecção, especialmente nos grupos de risco (diabéticos e hipertensos).
 
Apesar da rede de atenção terciária (clínicas de diálise) estar estruturada, não existe uma rede de atendimento ao paciente renal em estágios mais precoces da doença. Estas limitações fazem com que muitos doentes não sejam reconhecidos até a fase tardia da patologia, quando as complicações são graves, muitas vezes levando à morte antes do paciente ingressar no tratamento especializado. 
É preciso que se crie uma rede ambulatorial de nefrologia, relacionada intimamente com a atenção primária, para que pacientes com insuficiência renal sejam diagnosticados precocemente e recebam tratamento adequado para a prevenção da progressão da doença. Neste caso, seriam reduzidas as complicações, acarretando em menor número de internações e de taxas de mortalidade.
Uma opção de terapia é a diálise peritoneal (DP) que permite aos pacientes manter uma vida mais próxima do normal, pois o tratamento pode ser feito em casa, possibilitando que o paciente trabalhe, faça suas viagens e mantenha suas atividades do dia a dia. A DP é uma terapia mais prática e fisiológica. Além disso, naqueles pacientes que têm uma função renal residual (ainda com certa diurese), preserva essa função por mais tempo.
No entanto, apesar de ser equivalente à hemodiálise do ponto de vista clinico, a DP só é utilizada em 10% dos pacientes brasileiros. Dentre as principais razões para não estimular este tratamento, destacam-se o fato de muitas clínicas não terem o tratamento disponível e a questão do reembolso inadequado para essa terapia por parte do SUS. 
Há ainda uma carência de programas de treinamento de médicos e enfermeiros para a DP nos hospitais de ensino e nas residências médicas credenciadas pelo MEC. Muitos especialistas se formam sem receber capacitação para tratar pacientes com DP.
Não é difícil prever o enorme impacto social e econômico no sistema de saúde, especialmente com o aumento de diabéticos e hipertensos, que vai impossibilitar a viabilização da terapia renal para todas as pessoas que necessitarem.
Roberto Pecoits-Filho é Vice-Presidente da Sociedade Brasileira de Nefrologia; coordenador do Comitê de Jovens Nefrologistas e membro do Comitê de Publicações da Sociedade Internacional de Nefrologia; coordenador do Capítulo Latino Americano da Sociedade Internacional de Diálise Peritoneal.
 
 
 
 

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