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A difícil tarefa de levar médicos às regiões mais afastadas

Antonio Carlos Lopes

Nos últimos dez anos, o número de médicos cresceu 21,3% em todo o País. O índice é muito superior ao aumento da população no mesmo período, de 12,3%. Os dados são do Conselho Federal de Medicina, que também verificou que hoje somos 371.788 profissionais em atividade, o que leva o Brasil à quinta colocação em número absoluto de médicos no mundo.
São estatísticas que comprovam o que há muito tempo se sabe: não faltam médicos no país. O grande problema vivido atualmente está por conta da má distribuição destes profissionais ao longo desta nação de dimensões continentais.
Além da melhor oferta de empregos e condições de trabalho nos grandes centros urbanos, é evidente que estas regiões garantem mais qualidade de vida ao médico e à sua família. Diante desta situação, o Ministério da Saúde busca alternativas para solucionar o problema da assistência médica em localidades afastadas e de difícil acesso, para que as pessoas lá residentes tenham garantido seu direito constitucional à assistência médica digna.
No entanto, na contramão de todo este panorama, está a abertura de novas vagas em cursos de medicina já existentes, e também a criação indiscriminada de escolas médicas. Tais medidas, criticadas veementemente por lideranças e entidades médicas, distorcem a realidade dos fatos, apresentando a falsa ideia de carência de médicos em relação à demanda dos pacientes.
O Distrito Federal e o Rio de Janeiro são provas de que quantidade não é remédio para a assistência aos cidadãos. São estados que ostentam o maior número de médicos por pacientes. Apesar disso, seus sistemas de saúde não têm a qualidade desejada.
O que necessitamos é de uma política de fixação de médicos em regiões afastadas, bem como a extinção do profissional que escolhe a medicina sem ter consciência da estrutura psicológica que precisa ter para exercê-la. Não trabalhamos na frente de computador, mas com seres humanos, e temos que lidar com uma série de questões que estão muito além dos pré-requisitos técnicos da profissão.

Aspectos médicos, religiosos, éticos e morais envolvem a formação do médico para que ele possa exercer adequadamente o seu dever, resgatando valores depositados no indivíduo desde seu nascimento, dia após dia. E para superar a deficiência do vestibular, o ideal seria que os pretendentes à carreira médica fossem avaliados também por um exame psicotécnico que selecionasse não só os candidatos que sabem responder as questões clássicas, mas sim aqueles que possuem as demais características exigidas pela profissão.
Na prática desta profissão, é mister estreitar o relacionamento e exercitar o amor ao paciente. Se faltam profissionais no Brasil, certamente falamos em termos qualitativos. Precisamos de médicos com perfil adequado, que sejam competentes e gostem de gente. Do médico que realmente observa no doente aquilo que há de mais importante e busca com todo o seu empenho restituir a esse indivíduo o que ele possui de mais valioso: a saúde.
Vamos pensar em soluções sérias. Uma delas seria criar equipes multiprofissionais de médicos, residentes, enfermeiros, fisioterapeutas, nutricionistas, assistentes sociais, que possam trabalhar em parceria com as forças armadas, envolvendo inclusive os próprios médicos que servem o governo nessas três armas, sempre sob a orientação de preceptoria.
 
Essas equipes teriam a responsabilidade de assistir às regiões mais afastadas de forma rotativa, por um período idealizado de maneira adequada utilizando a infraestrutura e a logística das três armas. Uma proposta que deveria, aliás, caminhar para uma política de governo, em alternativa aos médicos formados no exterior sem avaliação.
O projeto já vem sendo avaliado tanto pela aeronáutica como pela marinha, juntamente com a Escola Paulista de Medicina, da Unifesp. Fica aqui nossa esperança de que isso se transforme, em um futuro não muito distante, em política de governo, trazendo grande beneficio à comunidade.
Antonio Carlos Lopes é Presidente da Sociedade Brasileira de Clínica Médica.

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