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A assistência médica brasileira está gravemente doente

Abrão José Cury Jr.
A sociedade brasileira foi surpreendida em dezembro de 2012 com a informação de que mais da metade dos médicos formados nas faculdades do país não está apta a exercer a profissão. Pior é afirmar que o restante de fato está apto apenas a fazer aprimoramento através de residência médica, ou estágio reconhecido pelo Ministério da Educação e Cultura (MEC), ou por sociedade médica de especialidade. A simples conclusão do curso não confere a todos os atributos necessários à prática da medicina.
 
Os 55% inaptos não têm condições adequadas para fazer aprimoramento, o que significa que a formação básica foi pobre, ineficaz, ineficiente e, apesar disso, não há impedimento, ao receberem o diploma, de exercerem a profissão. Não é difícil identificar as causas desse problema que pode levar e certamente levará a tragédias anunciadas.
 
Um dos problemas é a abertura indiscriminada de escolas de medicina sem condições mínimas de funcionamento, que prometem formação diferenciada com treinamentos virtuais e bonecos. Medicina se aprende à beira do leito do paciente com médicos dedicados e notoriamente competentes. Escolas de medicina sem hospitais universitários voltados à formação acadêmica são, no mínimo, chocantes. Muito importante é a ampliação de vagas para residência médica e estágios reconhecidos.
 
Os ministérios do governo envolvidos na formação médica e de assistência à saúde têm grande responsabilidade nos fenômenos ocorridos nas escolas médicas e nos hospitais brasileiros, recentemente. O desprezo a uma decisão tomada pela comissão especial do MEC, na época presidida pelo professor Adib Jatene, que recomendava o descredenciamento de algumas escolas médicas, mais do que expor a sociedade ao risco da assistência dada por profissionais mal preparados, mostra a insensibilidade do governo a uma decisão tomada por uma comissão com a chancela de uma das figuras mais respeitadas do país.
 
Somada a essa demonstração de insensatez está a intenção de abrir novas faculdades e, pior ainda, a doentia intenção de credenciar médicos formados em centros estrangeiros sem a devida avaliação prévia.
 
Outro problema é a percepção do estudante de que o mercado de trabalho está sucateado e que as empresas de medicina de grupo têm sistematicamente subvalorizado o trabalho médico. Isso desmotiva.
 
Os órgãos governamentais que deveriam regularizar essa situação são omissos, tratando com descaso também os profissionais da saúde, a exemplo do que fazem as empresas de medicina de grupo.
 
Com hospitais públicos sem condições mínimas de funcionamento, atribuir sempre ao médico a responsabilidade civil e criminal por eventuais problemas pode ser uma transgressão aos valores morais e éticos que devem nortear a sociedade. O que temos de fato é uma pobre gestão governamental na saúde, sendo que sua melhoria demanda competência técnica e tempo, longo demais para a população vítima da situação, mas é preciso resolvê-la.
 
Não se advoga aqui a remuneração vultosa aos profissionais da saúde como forma de salvar a assistência médica. Várias intervenções precisam ser realizadas, como uma gestão correta e dedicada à melhoria da saúde em geral. Todos os profissionais envolvidos merecem reconhecimento, que não pode prescindir de uma remuneração justa e adequada à realidade nacional e às necessidades do exercício profissional e da permanente atualização.
 
A medicina não pode ser diferente para as pessoas com mais ou menos recursos financeiros. Vivemos em um país em que 75% da população dependem exclusivamente do Sistema Único de Saúde. Imaginar um projeto que não contempla essa realidade é um erro brutal.
 
Cabe ao estado a difícil tarefa de gerenciar o atendimento melhor a população carente e desenvolver um modelo para que os privilegiados pelas condições socioeconômicas possam subsidiar o próprio atendimento. Somente assim a assistência médica do país poderá entrar em convalescência.
 
Abrão José Cury Jr, Vice-Presidente da Regional São Paulo da Sociedade Brasileira de Clínica Médica.
 
 

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