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Caiu e quebrou ou quebrou e caiu?

Dr. Vincenzo Giordano

Dizer que nossa população (e da maioria dos países do mundo) está envelhecendo é basicamente consequência de dois importantes fatores, quais sejam, menor taxa de natalidade e menor taxa de mortalidade. Se por um lado saber que nossos avós e pais (e porque não, nós mesmos e nossos filhos) irão viver mais é muito bom, por outro lado alguns problemas decorrem dessa (cobiçada) longevidade. Ao menos, a curto prazo, veremos mais pessoas que sofrerão de algum tipo de quadro demencial, doenças degenerativas esqueléticas e não esqueléticas, e fraturas osteoporóticas. Digo a curto prazo porque inúmeros pesquisadores vêm buscando soluções para os problemas advindos do envelhecimento. No entanto, o que temos até o momento são basicamente os mesmos números ruins que tínhamos até pouco tempo atrás.

Assim é com as fraturas osteoporóticas em nível do quadril. Seguimos observando uma incidência vertiginosamente cada vez maior de pacientes com esse tipo de lesão, mas as complicações decorrentes dessas fraturas seguem numericamente iguais. Em nosso país, carente de estudos demográficos bem desenhados e conduzidos não sabemos ao certo quantos pacientes com essas fraturas tratamos a cada ano, em geral baseando-nos em números norte-americanos. Atualmente as fraturas osteoporóticas do quadril ocorrem em 280 mil ao ano e há uma estimativa de que em 2040 terão mais de 500 mil, com um custo estimado de US$ 9,8 bilhões. Se extrapolarmos a mesma quantidade de pacientes de lá para cá, imaginemos de bate-pronto dois grandes problemas: nossos hospitais (públicos e privados) estarão abarrotados de pacientes com essas fraturas e os cofres públicos e os seguros-saúde estarão condenados a sucumbirem empobrecidos e falidos. Isso sem contarmos outras tantas lesões de caráter degenerativo nessa mesma população, que certamente irão ocorrer também em algum momento da senescência.

A pergunta, então, é: o que podemos fazer para tentar mudar um pouco esse cenário? Embora a priori não seja factível modificá-lo ampla e positivamente, algumas medidas certamente podem (e devem) ser precocemente instituídas. Conto-lhes uma pequena historinha recorrente em minha prática diária nesses últimos 20 anos que, acredito, ilustra bem algumas ações que podemos fazer. Muitos pacientes que opero por fraturas osteoporóticas do quadril e algumas vezes seus familiares, me perguntam, seja de forma anedótica seja por desconhecimento e curiosidade, se o osso estava tão ruim que quebrou antes da queda ao chão. Caiu e quebrou ou quebrou e caiu? Quebrou porque o osso estava tão frágil que, ao chocar-se com o chão, foi incapaz de resistir ao trauma e rompeu-se.

Depreendemos, pois, duas ações que devem ser tomadas tanto profilática quanto terapeuticamente. A primeira diz respeito à prevenção de quedas, fato comum no paciente mais idoso, e a segunda tem a ver com o tratamento da doença osteoporótica, a qual reduz imensamente a capacidade de resistência mecânica do osso. Sabemos da literatura médica que o indivíduo depois dos 65 anos de idade sofre ao menos uma queda importante ao ano, entendendo-se por importante aquela que gera uma ida a um setor de atendimento de emergência, com ou sem internação decorrente da(s) lesão (ões) sofrida(s) na queda. Depois dos 80 anos de idade esse número triplica, havendo uma correlação direta entre a(s) queda(s) e o risco de óbito. Somente para exemplificar o que acabo de escrever, vamos novamente aos números das fraturas osteoporóticas do quadril: aproximadamente 6% dos pacientes que as têm morrem no primeiro mês após a fratura e 30% no primeiro ano, e cerca de 20% dos que sobrevivem nunca mais voltam a caminhar. Precisa mais para entendermos que necessitamos fazer algo?

A segunda ação diz respeito à osteoporose. É fundamental que tomemos medidas diagnósticas e, em caso de identificarmos os pacientes com esse problema, terapêuticas, de forma a melhorar a resistência óssea às fraturas. A Organização Mundial de Saúde (OMS) recomenda que todo paciente do sexo feminino faça a densitometria óssea, exame padrão-ouro no diagnóstico da doença osteoporótica, após o início da menopausa e que todos os pacientes, independentemente do sexo, a façam após os 70 anos de idade. Pois é, se vocês não sabiam, os homens também têm osteoporose e também sofrem fraturas por causa disso!

Pois bem, o que podemos fazer, então? Como médicos temos a obrigação de investigar essa doença sempre que houver indicação (e existem outras além das que citei acima), solicitando anualmente o exame de densitometria óssea. Caso haja osteoporose, existem inúmeras boas medicações atualmente para tratá-la adequada e confortavelmente, afinal é muito “melhor prevenir do que  remediar”. Pergunte a seu médico sobre os prós e os contras de cada uma dessas e, conjuntamente a ele, inicie o tratamento, quando indicado. A realização de atividade física regular, melhorando a força e a resistência muscular, é outro aspecto importante na abordagem do paciente osteoporótico. Hoje conhecemos bem a chamada síndrome da fragilidade, que reduz drasticamente a força e o volume muscular (sarcopenia) e eleva o risco de queda. Finalmente, a orientação quanto à redução de outros fatores de risco de queda, como déficit de acuidade visual ou auditiva e automedicação, devem ser discutidos com os pacientes e seus familiares. É recomendável que o paciente, por volta dos 50 anos de idade, faça uma avaliação clínica anual e, dependendo das mudanças que possam estar surgindo decorrentes do envelhecimento, busquem os médicos especialistas de modo a corrigi-las ou eventualmente tratá-las.

Assim, lembrem-se: não caia se não quer arriscar-se a quebrar algo, ainda mais ao nível do quadril. Prevenção é a palavra de ordem e, ao menos por enquanto, o que podemos fazer é melhorar nossa qualidade vida, exercitar-nos, alimentarmo-nos bem e levar à risca a medicação anti-osteoporótica que seu médico lhe prescrever.

Dr. Vincenzo Giordano é médico referência da Clínica São Vicente para as urgências e emergências ortopédicas e especialista em Ortopedia e Traumatologia
 
 

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