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O voto e a guerra contra o câncer

Sergio D. Simon, Presidente da SBOC

O câncer tende a ser a principal causa de morte de brasileiros a partir da próxima década. No entanto, quase nada se sabe sobre como os candidatos à presidência planejam enfrentar esse monumental desafio. Por este motivo, a Sociedade Brasileira de Oncologia Clínica (SBOC) dirigiu aos candidatos algumas questões sobre o tema. Surpreendentemente, nenhum deles se dispôs a respondê-las. Um silêncio assustador.

A partir disso, a SBOC, então, debruçou-se sobre os programas de governo dos candidatos que passaram ao segundo turno, Fernando Haddad (PT) e Jair Bolsonaro (PSL), e encontrou ideias gerais e várias boas intenções para melhorar a saúde pública no Brasil, ainda que sob perspectivas muito distintas. Haddad promete programas que incentivem a alimentação saudável e atividade física, a valorização do parto normal e atenção especial para mulheres, negros, LGBTI+, idosos e outros grupos mais vulneráveis. Especificamente sobre o câncer, nenhuma palavra. Por sua vez, Bolsonaro propõe o treinamento de agentes comunitários de saúde para se tornarem técnicos de saúde preventiva, além da inclusão de profissionais de educação física em programas federais. Novamente: sobre o câncer, zero.

A falta de informação e debate sobre um assunto tão central ao futuro dos brasileiros é alarmante. E, por isso, exortamos os candidatos à presidência a atentarem à magnitude do problema que o câncer representa ao país. Em 2018, o Brasil chegou a uma taxa de incidência do câncer de 217,2 casos por 100 mil habitantes – cerca de 600 mil brasileiros diagnosticados pela primeira vez com a doença por ano. Na escala global de incidência, dividida em cinco patamares, estamos no segundo, logo atrás dos países desenvolvidos.

A guerra do Brasil contra o câncer terá de ser travada em várias frentes. A primeira é a prevenção primária, com vacinação da população e controle das doenças infecciosas que causam câncer – como o HPV, a hepatite B, a hepatite C e o HIV –, além da diminuição do tabagismo e alcoolismo e o aumento dos cuidados com a exposição solar, da qualidade da dieta e do controle da obesidade.

A segunda é o diagnóstico precoce. É preciso ampliar o rastreamento do câncer de mama com mamografia de boa qualidade, pois a maioria dos pequenos municípios nem sequer possui um mamógrafo e o número de mamografias está diminuindo no país, dado especialmente assustador. Há, ainda, outras ações essenciais que devem ser implantadas em maior escala, incluindo o exame de Papanicolau e a identificação das famílias com mutações genéticas nas quais medidas preventivas podem ser tomadas.

Essas políticas públicas têm eficiência globalmente comprovada. Países onde a mamografia atinge mais de 70% das mulheres conseguiram reverter a mortalidade por câncer de mama em ao menos 30%, nos últimos 30 anos. O Brasil, entretanto, está indo na direção oposta: segundo o Instituto Nacional de Câncer (INCA), a mortalidade por câncer de mama apresenta uma curva ascendente. 

A batalha dentro do SUS também será decisiva. Os atrasos para cirurgia e radioterapia pioram os resultados do tratamento. O Brasil precisa melhorar a gestão da capacidade instalada de radioterapia e aumentar o parque tecnológico. Tratamentos quimioterápicos estão totalmente defasados em relação ao que é aprovado para o sistema privado. Em outras palavras: o paciente oncológico tratado no sistema público tem menor chance de cura e sobrevida. Diante de um quadro tão grave, o próximo presidente – seja ele quem for – precisa de um plano acurado e minucioso desde o início de seu governo para que o Brasil tenha condições de fazer muito mais contra o câncer. A omissão, por outro lado, cobrará um preço inadmissível.

Sergio D. Simon é oncologista e Presidente da Sociedade Brasileira de Oncologia Clínica (SBOC).
 

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