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O Brasil que temos e aquele que queremos

Em 2019, os casos de dengue aumentaram em 600%, conforme divulgado dias atrás pelo Ministério da Saúde (MS) do Brasil. Os episódios de chikungunya e zika também cresceram em relação a 2018. O País registrou ainda 3.339 casos confirmados de sarampo em 16 estados, nos últimos 90 dias, de acordo com boletim epidemiológico divulgado em 13 de setembro também pelo MS. Não bastasse, existe uma previsão de alta da febre amarela no verão que se avizinha.  

Enfim, de alguns anos para cá, o que se vê é a desconstrução dos avanços imunológicos amealhados no decorrer das décadas recentes. O caos anunciado possui uma série de gatilhos, como o congelamento dos investimentos em saúde por vinte anos, decretado pelo Congresso Nacional na gestão Michel Temer.  
Outra agravante, sem a menor sombra de dúvida, é a contracultura e o semear da ignorância. Falo daqueles que pregam irresponsavelmente serem as vacinas inúteis, fake news que desinformam a população e põem em risco velhas e novas gerações de brasileiros.  

Diante de um quadro tão grave e de perspectivas sombrias para o futuro breve, era de se esperar que autoridades públicas chamassem a si a responsabilidade, fazendo o possível e o impossível para colocar a saúde do Brasil em um caminho mais alentador. Só que não. É justamente o contrário o que vemos nos noticiários.  

Semana passada, foi anunciada a proposta orçamentária para 2020. O Ministério da Saúde, por incrível que pareça, deve cortar cerca de R$ 400 milhões dos recursos para a compra e distribuição de vacinas. São 7% a menos de destinação de verbas para imunização em um momento que o País, com o perdão do paralelo, chega ao fim da picada.  

Já faz anos que as taxas de cobertura caem, ameaça iminente ao Plano Nacional de Imunização (PNI), até então uma das principais referências de sucesso em saúde pública. Explica-se assim outros retrocessos, como o recente alerta de retorno da caxumba e difteria. Os resultados já preocupantes tendem a piorar. Afinal, uma eventual falta de vacinas no Brasil é o retorno à idade das trevas. Significa ainda desperdício de dinheiro público; isso porque ao comprar vacinas economizamos com medicamentos, internações, perda de dias de trabalho e de escola e por aí segue.  

À semelhança dos filmes de horror, paralelamente assistimos pasmos a inércia e a insensibilidade de muitos daqueles eleitos teoricamente para nos representar. Calada diante das mazelas da saúde, parcela considerável de nossos parlamentares segue articulando na calada da noite, nos gabinetes de luxo em Brasília, o aumento das verbas partidárias para a eleição de 2020 e o afrouxamento de leis que inibem os crimes do colarinho branco.  Esse, tristemente, é o Brasil que temos. Não o que queremos e podemos construir. A hora é de indignação e reação. Vamos juntos.  

Antonio Carlos Lopes é presidente da Sociedade Brasileira de Clínica Médica.

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