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Cesárea x parto normal: qual a melhor decisão?

O Brasil ocupa o segundo lugar no mundo em número de cesáreas, com uma taxa de acima de 55% do total de partos, perdendo apenas para a República Dominicana com 58,1%. No entanto, a OMS - Organização Mundial da Saúde indica que 15% é um índice tolerável e adequado para a realização do procedimento quando mãe e bebê não estão em condições físicas e nem de saúde para um parto normal. 

A América Latina é a região com maior taxa de cesarianas quando comparada a outros continentes. Mas o que nos difere da Europa, por exemplo, que tem uma taxa de 25% de partos cirúrgicos? Na França, a taxa média de cesarianas, com indicação, é na casa dos 21%. Aqui, a lógica parece ter sido invertida, e quando falamos na rede particular esse dado é ainda mais alarmante. 
Sabemos que quando bem assistido e com uma gravidez de baixo risco e sem contraindicações, o parto normal, também conhecido como parto vaginal, é o mais indicado. Pesquisa da Fiocruz, em parceria com diversas instituições científicas do país, mostraram que, cerca de 70% das gestantes brasileiras desejam um parto normal no início da gravidez, porém, poucas são apoiadas nessa decisão. 

É fato que, desde os nossos primórdios o parto normal é um acontecimento fisiológico e um processo natural que quase não necessita de intervenção médica - quando a gestação é considerada de baixo risco. Assim, a gestante deve ser acompanhada por uma equipe multidisciplinar durante a jornada da gravidez para se identificar e evitar possíveis riscos.
Já a cesárea é uma cirurgia de médio porte, e é recomendada apenas em casos de possíveis complicações para a mulher e para o bebê.

O procedimento salva vidas, porém é preciso ter critério. É bem verdade que os avanços da obstetrícia, o desenvolvimento da ciência e de novas técnicas atreladas à tecnologia, tornaram o parto hospitalar mais seguro e melhoraram os indicadores de morbidade e mortalidade materna e perinatais. Contudo, dentro do ambiente hospitalar, as mulheres e os recém-nascidos, às vezes, são expostos a intervenções desnecessárias, como episiotomia, cesariana, uso indiscriminado de ocitocina, entre outras, que empobrecem o ato extraordinário que é dar à luz. 

Esse excesso de intervenções pode ferir aspectos emocionais e físicos da parturiente. Uma em cada quatro mulheres sofre algum tipo de violência durante o parto e isso é lamentável. É chamada de violência obstétrica quando há inibição de movimentação da mulher durante o trabalho de parto, a realização de procedimentos que não têm necessidade de acontecer, a omissão de informações importantes, a execução de procedimentos sem o consentimento da mulher, o desrespeito às escolhas dela, os maus tratos e abuso de poder.

Nos últimos anos, com o surgimento de novas evidências científicas, tem-se buscado promover os aspectos naturais e fisiológicos do parto. É durante o pre?-natal que os profissionais de sau?de orientam as gestantes sobre formas opcionais para controlar a dor durante o trabalho de parto, falam sobre a realização de diferentes atividades que facilitem ou contribuam para o desenvolvimento do trabalho de parto. A gestante precisa ser ajudada a compreender que na?o ha? justificativa para se realizar uma cesariana apenas com a finalidade de evitar as dores do parto, pois a cirurgia trará? suas próprias complicações e riscos a? saúde da mãe e filho. 

Sabemos que a cesárea aumenta o risco de infecções pós parto, as taxas de hemorragia materna e a incidência de internações em UTI neonatal. Normalmente, quando o trabalho de parto ocorre espontaneamente, o bebê já está completamente maduro e formado, o que reduz as chances de internação em UTI neonatal. Além disso, ao passar pelo canal vaginal, o tórax fetal é comprimido, o que reduz as chances de aspiração do líquido amniótico e a incidência de problemas respiratórios. No canal vaginal, o feto também entra em contato com bactérias e fungos que irão ajudar na formação da sua microbiota intestinal, o que favorece um melhor desenvolvimento de seu sistema imune.

São muitas as vantagens de ser ter um parto natural. Muito além da saúde, a gravidez e o parto, são dotados de sentimentos, planejamentos e sonhos; um momento único e especial na vida de cada família. Este momento exige o devido acolhimento, pois a experiência vivida por esta mulher pode deixar marcas profundas positivas ou negativas em sua vida. Assim, é fundamental um serviço de saúde qualificado de atenção à gestante, centrado na mulher. 

Além de um acompanhamento pré-natal adequado, a mulher precisa ser amparada e claramente informada sobre riscos, benefícios e como ocorrem os tipos de parto. E a decisão da via de parto deve ser compartilhada entre a gestante e a equipe de saúde que a acompanha, e o principal: a mãe precisa sentir que está sendo ouvida e compreendida para se sentir segura e tranquila. 

Dra. Laura Penteado é obstetra e ginecologista com residência no Hospital das Clínicas da FMUSP e em Mastologia no Instituto do Câncer de São Paulo (ICESP) da FMUSP. É diretora médica da Theia – clínica de saúde que acompanha a mulher gestante, e atua como médica obstetra nos principais hospitais e maternidades de São Paulo.
 

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