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O Alzheimer e as mulheres

Neurologista orienta abordagem à paciente com queixas de memória e revela os tratamentos e medidas preventivas mais eficazes para prevenir o problema


A prevalência de demência aumenta exponencialmente com a idade. Porém, alguns estudos observam que, após os 90 anos, tende a diminuir. Saiba o que pensa Sonia Maria Dozzi Brucki, coordenadora do Departamento Científico de Neurologia Cognitiva e do Envelhecimento da Academia Brasileira de Neurologia, sobre os principais aspectos da doença, benefícios do controle de fatores de risco e outras medidas preventivas.

Há fundamento no conceito bastante difundido entre a população, de que quanto mais ativo o cérebro, menores serão as características de envelhecimento?

Sim, a atividade cognitiva é sempre benéfica e jamais sobrecarregará o cérebro. Ela mantém a neurogênese no hipocampo e é responsável pela manutenção e aumento de sinapses nas regiões corticais.

Há medidas preventivas eficazes e como devem ser adotadas?

Sabe-se que o exercício físico e a atividade cognitiva são benéficos ao cérebro e à cognição em qualquer idade. Mesmo indivíduos idosos, que começam mais tardiamente estas atividades, apresentam benefícios. A dieta do tipo mediterrânea (rica em cereais, azeite, peixes, legumes, verduras e frutas) parece ter ação protetora também, bem como o consumo leve de bebidas alcoólicas, principalmente, vinho tinto. Outro ponto importante é o controle de fatores de risco para doenças vasculares, como diabetes, hipertensão arterial, obesidade e tabagismo, principalmente.

Quais os principais diagnósticos diferenciais?

O comprometimento cognitivo deve ser investigado com exames de imagem (tomografia ou ressonância magnética) e laboratoriais (hemograma, função hepática e renal, cálcio, função tireoidiana, dosagem de vitamina B12 e de ácido fólico e sorologia para sífilis) para afastar causas potencialmente tratáveis e reversíveis. Dependendo das funções cognitivas e/ou comportamentais acometidas, o diagnóstico diferencial pode ser com Doença de Alzheimer, demência com corpos de Lewy, demência vascular, demência frontotemporal, entre outras.

Existem critérios objetivos que podem ser transmitidos à família para que possa auxiliar na suspeita de que há algum problema?

Alguns achados podem servir de alerta. O principal deles é a comparação do indivíduo com ele mesmo, ou seja, observar a capacidade de trabalho e o raciocínio, bem como as atividades elaboradas e verificar se o indivíduo segue com a mesma capacidade de antes.

Quais os melhores tratamentos disponíveis hoje no Brasil para o Alzheimer?

A doença de Alzheimer tem tratamento sintomático para a cognição, com relativa estabilização do declínio ou até mesmo melhora. Deve se iniciar o mais precocemente possível e inclui inibidores das colinesterases, que são fornecidos gratuitamente pelo SUS. Outras medicações como a memantina podem ser indicadas, bem como o tratamento específico para outros distúrbios que possam aparecer, como apatia, depressão, irritabilidade, agitação ou alucinações.

Muitas mulheres, em diferentes idades, queixam-se de perda de memória. Como o ginecologista pode identificar as que devem ser avaliadas por um neurologista?

Primeiramente, deve descartar causas não degenerativas, que também podem levar ao comprometimento de memória, como hipotireoidismo, déficit de vitamina B12, entre outros. Também verificar se as queixas não estão relacionadas a depressão e/ou ansiedade. E de qualquer forma, um ponto fundamental a ser observado é se, junto à queixa de memória, há alguma dificuldade na realização de atividades do dia a dia.

Existe explicação para a maior incidência de Alzheimer e outras demências em mulheres?

Alguns estudos observaram uma frequência maior entre mulheres, porém, não todos. Elas vivem mais e, como a Doença de Alzheimer é característica do envelhecimento, talvez isto explique, em parte, os estudos que as apontam como as mais acometidas. Outra explicação seria o déficit de estrógeno do envelhecimento, pois este hormônio tem ação de crescimento de neurônios e sinapses em estudo in vitro.

Qual a sua opinião sobre a relação entre terapia de reposição hormonal (TRH) e as ações cerebrais?

A TRH já se demonstrou ineficaz após o início dos sintomas cognitivos. Em alguns estudos, inclusive, teve efeito oposto. Alguns estudos apontam para um possível período ótimo para a sua ação no cérebro, mas novas pesquisas devem ser realizadas para melhor avaliação, pois ainda não está bem explicada sua indicação ou contra-indicação. No momento atual, sabemos que não deve ser usada para melhora da cognição em pacientes com demência ou como preventiva especificamente para isso.

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