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ENTREVISTA: O QUE NOS FALAM SOBRE TRANSTORNOS ALIMENTARES?

Comportamentos alimentares inadequados dão ibope. Chamam a atenção das pessoas pelo lado trágico das vidas que se desorganizam progressivamente, envoltas em uma relação estranha entre as frustrações e o consumo de alimentos, com uma autoimagem corporal  sempre fora dos   padrões almejados. “Geralmente, há muito sofrimento em comer exageradamente ou há um estranho e mórbido prazer em superar a própria fome e em passar dias sem comer. É exatamente isso que podemos ver, atualmente, na novela de Manoel Carlos, exibida na Rede Globo. Uma personagem que chama a atenção pelo exagero em evitar os alimentos para alcançar um peso muito abaixo do ideal e pelo consumo excessivo do álcool”, afirma a endocrinologista Ellen Simone Paiva, diretora do Citen, Centro Integrado de Terapia Nutricional. Confira mais comentários da Dra. Ellen Paiva.
 

É muito difícil a caracterização causal dos transtornos alimentares?
 Ainda não temos uma causa específica para o aparecimento dos transtornos alimentares, mas são descritos fatores comportamentais,  genéticos, familiares e psicológicos. De um modo geral, desejar ardentemente ter uma silhueta perfeita não implica necessariamente no desenvolvimento de um transtorno alimentar, contudo, a preocupação demasiada com o espelho tem aumentado as chances de manifestação dessas doenças relacionadas à distorção da imagem corporal. Além dos rigorosos padrões atuais de beleza, outros fatores devem influenciar o desenvolvimento dessas doenças. Talvez as experiências dos filhos ao compartilharem com as mães as dificuldades delas para emagrecerem, talvez os rigorosos padrões de beleza, talvez uma maior vulnerabilidade. Certamente, não são somente estes fatores. A doença tem causas mais complexas como revela a predisposição dessas pacientes a outras doenças psiquiátricas, como o alcoolismo e a depressão.

Comportamentos alimentares inadequados são muito comuns nos dias de hoje?
Acredita-se que na sociedade ocidental, entre 9% e 22% das adolescentes lançam mão de comportamentos alimentares inadequados com o objetivo de perder peso. Esses comportamentos estão associados com desnutrição, retardo no crescimento, retardo na maturação sexual e sintomas de transtornos mentais  como depressão, ansiedade, fadiga crônica e maior risco de desenvolver transtornos alimentares propriamente ditos. Além disso, há uma associação entre práticas inadequadas de dieta com outros comportamentos de risco como tabagismo, abuso de álcool e de drogas, delinquência, comportamento sexual precoce e de risco e tentativas de suicídio.
É mesmo muito preocupante o grau de insatisfação corporal entre os adolescentes em todo o mundo. Mais de 25% dos meninos e cerca de 50% das meninas desejam perder peso, incluindo estatísticas de povos orientais. Um dado, no mínimo alarmante, é o fato de que a taxa de adolescentes que tentam perder peso é até maior em algumas populações orientais ocidentalizadas, como Hong Kong, onde 35% das meninas e 20% dos meninos utilizam  algum método para emagrecer em comparação com os adolescentes americanos, que exibem taxas menores (24 e 17% para meninas e meninos respectivamente). O mais impressionante nestes dados é que 81% destes jovens são considerados de baixo peso ou com peso normal, além do que, mais de 20% deles recorrem a métodos inadequados para alcançar seus objetivos de peso ideal, como dietas restritivas, medicamentos para emagrecer e a prática de vômitos auto-induzidos.

Qual a influência da mídia nesses casos?
É inegável a participação da mídia no processo de idealização da magreza. Matérias sobre beleza e dieta  em revistas, jornais, televisão e na Internet têm um retorno dificilmente alcançado por qualquer outro tema. Daí a importância de se utilizar esses meios de comunicação para informar adequadamente os jovens, o grupo mais vulnerável de usuários da informação veiculada por eles. Entretanto, as pesquisas revelam o contrário, quando demonstram que existe uma maior frequência de práticas alimentares inadequadas entre os jovens que lêem revistas de beleza, que tradicionalmente veiculam dietas e métodos milagrosos para emagrecer.
Entre as pesquisas sobre o tema, chama a atenção o desconhecimento dos jovens a cerca dessas doenças, podendo chegar a 43% deles e o que é pior, para aqueles que detêm algum conhecimento sobre o tema, 60% adquiriram esse conhecimento através da mídia e apenas 33% dos adolescentes receberam informações através de profissionais de saúde e professores.

Como a mídia pode ajudar na prevenção desses problemas?
Nos últimos anos, temos visto manifestações contrárias à ditadura da magreza em importantes países europeus, como  França, Espanha e Itália. Lá, percebemos profissionais da publicidade, da moda e governos engajados no mesmo intuito. Tais tentativas de mudança comportamental ainda são insuficientes e de pouco impacto na população de risco, principalmente quando as comparamos com a força das grandes marcas da indústria da moda, que insistem em criar seus modelos baseados em corpos infantilizados pela magreza excessiva. “Tal fato também pode ser  facilmente comprovado na mesma novela de Manoel Carlos, onde a personagem que já mencionamos, apresentando todos os sinais de anorexia tenta alcançar um papel de modelo ou atriz e para isso não mede esforços em abolir os alimentos e abusar do álcool em busca do ideal de magreza imposto veladamente pela profissão. Assim, não basta a informação adequada sem uma mudança na expectativa cultural criada pela indústria da moda e da publicidade. Publicitários e jornalistas devem adotar um discurso mais responsável no sentido de deixarem de glorificar  imagens de magreza excessiva, principalmente feminina, para que as novas gerações tenham mais chances de serem felizes com  formas corporais compatíveis com comportamentos alimentares normais.
Campanhas neste sentido já foram desencadeadas pelo mundo.

(ver http://www.youtube.com/watch?v=RKPaxD61lwo. A FAT TALK FREE WEEK tem  apoio da Academy of Eating Disorders e de várias outras instituições ligadas a transtornos alimentares. O objetivo da campanha é questionar a busca de um corpo ideal, tão enraizada na cultura contemporânea, que coloca adultos e crianças em um estado permanente de insatisfação e de baixa autoestima).

 
 

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