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Epilepsia: diagnóstico e tratamento adequados são os principais desafios

Segundo dados da Organização Mundial da Saúde (OMS), a Epilepsia é uma das doenças mais frequentes e com maior impacto na qualidade de vida das pessoas. Somente na América Latina, estima-se que mais de 8 milhões de pessoas sofram com epilepsia. Existem vários desafios, começando pelo diagnóstico adequado. Ainda hoje, muitas pessoas não recebem sequer diagnóstico para essa doença tão comum. Outro ponto é garantir que as pessoas recebam tratamento adequado e que possam ter uma vida plena, com qualidade, tendo seus direitos respeitados.

"Nesse sentido, a maior conscientização é de suma importância e o Dia Mundial da Conscientização da Epilepsia tem esse intuito, de mostrar a doença, permitindo que as pessoas com Epilepsia tenham diagnóstico e tratamento adequados, sejam respeitadas e dessa maneira tenham uma qualidade de vida", destaca Dr. Lécio Figueira, neurologista e vice-presidente da ABE.

Tratamento da Epilepsia

O tratamento da Epilepsia consiste no uso de medicações que controlam as crises na maioria das pessoas. Os medicamentos devem ser escolhidos de acordo com idade, tipo de epilepsia e outras características e problemas adequados.

O uso das medicações de forma adequada, ajustando-se a dose e com acompanhamento regular, é seguro e constitui a maneira inicial e melhor forma de controle das crises. "É importante manter uso correto das medicações, pois a interrupção pode levar a riscos, com o retorno das crises em grande parte das pessoas, não devendo ser feito sem orientação médica", comenta Dr. Lécio Figueira.

Epilepsias refratárias: até 36% dos casos

É importante reconhecer que uma parte significativa das pessoas com Epilepsia não tem suas crises controladas com os tratamentos habituais. Essa condição é chamada de Epilepsia refratária ou farmacorresistente. Do ponto de vista prático, pessoas com Epilepsia que não ficaram sem crises após uso de duas ou mais medicações antiepilépticas se enquadram nessa definição, e isso pode acontecer em até 36% dos casos.

A Epilepsia Refratária causa impacto ainda maior na qualidade de vida dessas pessoas, não apenas pelas crises frequentes, mas por toda a situação envolvida, implicando em maior quantidade e doses de medicamentos, limitações sociais, trabalho, direção de veículos e até mesmo risco de traumas e morte.

"Nesse sentido é importante a conscientização de que esses pacientes devem receber atenção especial com avaliação em centros e por pessoas especializadas para melhor controle das crises. Nos últimos anos, o conhecimento científico tem apontado diversas opções para essas pessoas. Em geral o primeiro passo, como já foi colocado, é a avaliação em um Centro Especializado para reavaliação do diagnóstico e causa da Epilepsia", explica Dr. Lécio Figueira. Ele lembra que em muitos casos existe uma lesão que está causando as crises e a cirurgia para Epilepsia pode ser uma opção, em algumas situações levando ao controle completo das crises.

Cannabis medicinal

Infelizmente, apesar da dificuldade no controle das crises, muitas pessoas não são candidatas ao tratamento cirúrgico e nesses casos novas opções têm se apresentado. Uma delas é o Canabidiol, uma substância extraída da planta cannabis.

Apesar de conhecido há milhares de anos, apenas recentemente a ciência mostrou que o canabidiol, uma substância obtida pela extração da planta, apresenta eficácia baseada em evidências científicas sólidas.

Estudos mostraram que em algumas síndromes graves, que causam Epilepsia na infância, com destaque para as Síndromes de Dravet, Lenox Gastaut e esclerose tuberosa, o canabidiol foi capaz de ajudar no controle das crises. Baseados nesses estudos, produtos com canabidiol hoje são aprovados pelo FDA (Food and Drug Administration) nos Estados Unidos e também pelo EMA (European Medicines Agency), na Europa.

"Em geral, essas Epilepsias são de muito difícil tratamento, com grande impacto na vida das pessoas e famílias, afetando inclusive no desenvolvimento da criança", comenta Dr. Lécio Figueira, neurologista e vice-presidente da ABE.

Para se ter uma ideia, um dos estudos feito com todo rigor científico, que avaliou pacientes com síndrome de Lennox-Gastaut, publicado na New England Journal of Medicine, em 2018, demonstrou que os pacientes que receberam a solução oral de canabidiol tiveram maior redução da frequência das crises convulsivas. A redução variou de 37,2% a 41,9%, o que foi significativo quando comparados ao grupo placebo, em que as crises reduziram em 17,2%1 .

Outro estudo, publicado na mesma revista em 2017, avaliou pacientes com síndrome de Dravet, também demostrando redução na frequência de crises 2 .

"O avanço do conhecimento científico sobre a Cannabis medicinal no tratamento das epilepsias demonstra que essa nova área terapêutica pode contribuir de forma significativa no controle das crises epiléticas graves", diz o neurologista Dr. Flavio Rezende, mestre e doutor em Neurologia, professor do Departamento de Clínica Médica da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e diretor de Pesquisa e Desenvolvimento da Health Meds.

A epilepsia é uma doença cerebral caracterizada pela ocorrência de crises epilépticas, com uma predisposição duradoura a que elas voltem a acontecer. Além das crises, existem consequências neurobiológicas, sociais, cognitivas e psicológicas.

Entre as causas estão lesões congênitas (aquelas em que a pessoa nasce já com o problema, como as malformações cerebrais) ou adquiridas no cérebro, decorrente de várias causas, por exemplo, sequela de um acidente vascular cerebral (AVC), trauma de crânio, infecção (meningite, encefalite), drogas, uso crônico e abusivo de substâncias alcoólicas etc. Mais recentemente, várias causas genéticas têm sido descobertas, mas ainda é comum a existência de epilepsias sem causa conhecida.

Referências:

1. Devinsky, O. et al. Effect of Cannabidiol on Drop Seizures in the Lennox-Gastaut Syndrome. The New England journal of medicine 378, 1888-1897 (2018).

2. Devinsky, O. et al. Trial of Cannabidiol for Drug-Resistant Seizures in the Dravet Syndrome. The New England journal of medicine 376, 2011-2020 (2017).

 

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