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O médico, muito além das máquinas


Américo Tângari Júnior

O mundo se abre quando se liga um computador - para o bem e para o mal. Na área da Medicina, por exemplo, é fácil encontrar de estudos científicos de importantes centros de pesquisa aos mais reles charlatães. Entre um e outro, é bom sempre adotar cautela em seus cliques, pois tudo na web pode ser manipulado, como nos ensinam diariamente os hackers.

O fato é que a internet oferece hoje todo tipo de informação, verdadeiras e falsas, em qualquer área - o que importa é o uso que se faz desses dados. Ressalte-se que a liberdade de acesso e de navegação é salutar para a democracia. A internet é um dos grandes avanços da civilização e veio para conectar todos os homens.

É um importante apoio para a saúde: ali se pode pesquisar sobre hospitais, clínicas especializadas, relação de médicos credenciados; há de tudo sobre doenças, tratamentos, planos de saúde, ambulâncias, exames – enfim, todos os serviços estão à disposição. E, claro, bulas.

Bom para quem tem acesso à rede. Pessoas sem recursos, maioria neste País, continuam madrugando pelas filas do SUS em busca de uma senha que lhes permita uma consulta sabe-se lá para quando.

Para os médicos, muita coisa também mudou com o advento da internet. Hoje, qualquer paciente pode se informar sobre sua enfermidade e dialogar num nível mais elevado, com conhecimento de causa. Em alguns casos, a internet acaba se transformando até numa segunda ou terceira opinião. Os médicos precisam estar preparados e atualizados para isso.

Evidente que pessoas mal orientadas podem se automedicar com base em informações parciais ou virtuais – e isso é um perigo.

Numa vereda paralela, a tecnologia avança com extrema velocidade, dotando a Medicina de equipamentos para exames e procedimentos cada vez mais sofisticados. Máquinas de alta precisão podem realizar até videocirurgias a distância.

Mas toda essa modernidade deve ficar de lado quando uma pessoa entra no consultório, e olho no olho, começa a relatar seus sintomas, a falar de seu passado e de seu presente, de sua vida, de sua família e de seus antecedentes, de seus hábitos – é o momento de praticar a anamnese (do grego ana, trazer de novo, e mnesis, memória) e estabelecer uma conversa franca entre os dois.

Nessa interação se formulam 70% dos diagnósticos. O foco na pessoa – e não no computador ou na ressonância magnética - é que levará às causas de uma moléstia e a indicar o melhor caminho para o tratamento.

Em cardiologia, por exemplo, médico e paciente precisam ficar atentos aos sintomas que se manifestam em quase todas as doenças do coração ou que podem indicar algum tipo de comprometimento:

-- Falta de ar, ao repouso ou ao esforço; dor no peito, em virtude de má circulação sanguínea no local; cansaço fácil; desmaio após atividade física intensa; palpitações ou taquicardia; tosse seca persistente; pressão alta; cor azulada nas pontas dos dedos ou unhas; tonturas; varizes; má circulação nas pernas; impotência sexual; inchaço nos tornozelos.

Alguns sintomas podem ser confundidos com um simples mal-estar. Sudorese, tremores e falta de ar também estão entre as manifestações ou sinais de princípio de infarto agudo do miocárdio.

Se o paciente não tem nenhum dos sintomas e veio apenas em nome da prevenção, ótimo. Está a caminho de uma vida mais longa. De todo modo, é importante fazer um check-up uma vez por ano; noites bem dormidas e programas culturais também ajudam a relaxar – nesse caso, use sem moderação.

Enfim, fazer da prevenção o principal aliado, manter o compasso da máquina e viver intensamente. O coração merece, em nome da sobrevivência.

Saúde não é apenas a ausência de doença, como lembra a Organização Mundial da Saúde. Consiste no bem-estar físico, mental, psicológico e social do indivíduo, num estado cumulativo que deve ser promovido durante toda a vida.

Ainda que se determinem consultas ligeiras, pois a fila na sala de espera costuma ser grande, não se pode reduzir o valor de uma boa entrevista – há de se administrar esse tempo valioso para médico e paciente.

O diálogo tem de ser sempre respeitoso e cordial para que resulte em confiança mútua. Não custa lembrar Shakespeare:

“Sobre todas as coisas, para que alguém se torne digno de confiança, tão certo quanto a noite sucede o dia, é preciso nunca ser falso consigo mesmo”.

O médico deve acompanhar seu paciente pela estrada da vida, como faziam antes os médicos de família. Se os períodos de convivência no consultório se apertaram, ainda assim o médico não pode se deixar vencer pelas adversidades, pois sabe que sua presença é vital para a boa saúde física e mental do paciente e, principalmente, para preservar sua esperança. Essa é a arte de praticar o humanismo a todo instante.

Por isso, que venha a evolução – novas máquinas, novos exames, novas terapias e tudo o mais que nos ajude a preservar a vida. Mas que se preserve, acima de tudo, o amor pelo paciente e pela profissão – a essência da verdadeira Medicina. O que nenhuma máquina poderá substituir.

Américo Tângari Junior é especialista em cardiologia pela Sociedade Brasileira de Cardiologia e Associação Médica Brasileira. Integra a equipe de Cardiologia no Hospital Beneficência Portuguesa de São Paulo.

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