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A descaracterização da residência médica

Antonio Carlos Lopes
 
Há algum tempo a Residência Médica no Brasil vem sofrendo ataques frequentes e equivocados. Membros do próprio governo, alheios ao tema e sem a menor competência técnica para opinar e decidir sobre o mesmo, aventuram-se a sugerir maneiras de aproveitar a Residência Médica para, por exemplo, resolver o problema da falta de profissionais de medicina em áreas remotas e de difícil acesso. São posições oportunistas sobre a formação médica, questão que deveria ser tratada com a máxima seriedade.
Os desvios são inúmeros. A começar pelos interlocutores que ousam abordar o assunto. O posicionamento, neste caso, cabe única e exclusivamente à Comissão Nacional de Residência Médica do Ministério da Educação. No entanto, a Secretaria de Gestão de Trabalho e Educação na Saúde do Ministério da Saúde invade a área de atuação da CNRM, buscando assumir responsabilidades que não lhe cabem.
As distorções prosseguem quando se discute a escassez de programas de residência em Estados do Norte e Nordeste, como se o problema fosse localizado. Mais de 50% dos graduados em medicina não encontram vagas, que deveriam existir em número suficiente para qualificar a todos, uma vez que a residência médica é a melhor forma de treinamento após a graduação.
O que aquela Secretaria busca hoje, infelizmente, não é resolver o problema da má formação médica. É fazer dos residentes mão-de-obra barata para encobrir certos gargalos da saúde.  São gargalos provenientes da falta de plano de carreira, condições mínimas para o exercício da medicina, do fracasso do Sistema Único de Saúde (SUS), entre outros.
Parece que os membros da Secretaria de Gestão de Trabalho e Educação na Saúde do Ministério da Saúde continuam vendo a medicina pela janela dos gabinetes. Certamente, não é assim que se constrói uma medicina melhor, mais segura e de qualidade aos cidadãos.
É lamentável o desserviço prestado por aqueles que tentam assumir a competência que é da Comissão Nacional de Residência Médica. Médicos de qualidade se formam à beira do leito, com preceptoria qualificada e responsável, com experiência clínica, humana e acompanhamento competente. Se houvesse de fato interesse em resolver o problema, uma real contribuição seria, por exemplo, remunerar os preceptores dos vários programas de residência médica.
Como divulgado recentemente pela Secretaria de Gestão de Trabalho e Educação na Saúde do Ministério da Saúde, as duas mil bolsas de residência médica a serem distribuídas para as regiões de difícil acesso certamente ficarão, quase na sua totalidade, ociosas, a exemplo da experiência verificada há 3 anos. Em 2006, foram disponibilizadas 280 bolsas e apenas 20% delas aproveitadas. Após um ano esse número ainda caiu pela metade.
Então fica inevitável perguntar: por que a necessidade da exposição na mídia de fatos não consumados nesta época específica do ano? A resposta é evidente até mesmo para os mais desinteressados - o pano de fundo é puramente eleitoreiro.

Antonio Carlos Lopes, presidente da Sociedade Brasileira de Clínica Médica, ex-secretário executivo da Comissão Nacional de Residência Médica e professor titular da Disciplina de Clínica Médica da Universidade Federal de São Paulo. 
 

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