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A cultura da doença

Manoel Nascimento Rocha
O que vale mais: a saúde ou a doença? Pode parecer incoerente, mas, apesar de ser médico, às vezes penso que a doença vale mais, pelo menos para muitas pessoas e em muitas situações. Observando atentamente, sempre conseguiremos descobrir alguma compensação no sofrimento, principalmente naquele provocado pela doença.
Em nossa cultura, a doença é mais valorizada do que a saúde. Embora desejemos a saúde, cuidamos melhor da doença. Vamos explicar.
Desde criança, percebemos que a presença da doença, embora venha acompanhada de doses variadas de sofrimento, pode trazer algumas vantagens e compensações, pessoais, previdenciárias e até indenizações ou aposentadorias precoces.
Citemos como exemplo uma criança saudável, esperta, irrequieta, brincalhona e feliz, que vive “aprontando” o tempo todo, pulando, correndo, fazendo mil estripulias e, por essas e por outras, é, frequentemente, advertida, colocada de castigo e, algumas ou muitas vezes, recebendo, por esta condição saudável, natural, alegre, umas palmadas ou outro corretivo. Até que um dia, acontece dessa criança ser acometida por uma doença, banal, de pouca gravidade, que apenas lhe provoca uma simples febre e um pouco de desânimo, mas, suficiente para que a mãe, nesse dia e nos outros seguintes, se necessário, não vá trabalhar, fique do seu lado o tempo todo, lhe dê toda a atenção e carinho do mundo, pergunte-lhe o que prefere comer, oferece-lhe os alimentos habitualmente proibidos ou pouco permitidos (hambúrguer, batatas fritas, refrigerantes etc.), qualquer coisa para que possa “comer um pouquinho e não ficar fraquinha”. Quanta vantagem!
Então, a criança percebe que a doença foi até vantajosa, trouxe compensações. Começa a cultura da doença.
Outro fato que acontece muito frequentemente, por exemplo, em serviços públicos e outros é o caso de funcionário que está sempre se queixando de alguma doença, sua ou de algum familiar, situação que lhe permite, com grande frequência, “justificar” afastamentos do trabalho. Para os colegas de trabalho fica conhecido como “coitadinho”, como uma pessoa cheia de problemas, que deve ser poupada; dão-lhe menos tarefas, pois não sabem se poderão contar com ele, até fazem a parte do trabalho dele, para poder ajudar. Os colegas saudáveis são “premiados” com mais trabalho. Olha aí, de novo, a doença levando vantagem. Muitos seriam os exemplos de “vantagens” conseguidas pela doença.
Observamos que a doença pode funcionar como uma forma de atrair a atenção dos amigos, colegas e familiares que, às vezes, estão meio afastados. A doença dá pena, compaixão, traz solidariedade.
A doença pode justificar as nossas falhas, derrotas e frustrações, tornando-se uma “saída honrosa” para os fracassos e problemas das nossas vidas que fomos incapazes de resolver.
Muitas vezes, a doença está apenas apontando, através dos sintomas manifestados, um caminho para a solução de problemas emocionais mal resolvidos ou que não conseguimos resolver. De um problema que havia, ao invés da busca da solução, criam-se novos problemas.
Dessa forma, parece ser melhor manter a doença, que encobre outra realidade, pois, sem ela não teremos as desculpas que justifiquem não termos alcançado o sucesso, não termos vencido.
Para a Organização Mundial de Saúde - OMS - “saúde é estado de completo bem-estar físico, mental e social e, não apenas a ausência da doença”. Tal definição de saúde foi elaborada após a 2ª guerra mundial e trata-se de um conceito otimista, fruto da época do pós-guerra. Da forma como está definida, a saúde seria algo ideal, porém, inatingível, utópico, para a grande maioria das pessoas, não podendo ser utilizada como meta para os que organizam ou planejam os serviços de saúde.
Entendemos ainda que tal definição de saúde teria contribuído para uma medicalização dos indivíduos, que acham que essa seria a forma de alcançar a saúde ideal.
De uma forma mais simplista, há também quem defina a saúde, simplesmente como “a ausência de doença” ou como “um estado físico e mental em que é possível alcançar todas as metas vitais”.
Dentro de um entendimento mais amplo, a saúde seria vista como “um recurso para a vida diária, não o objetivo dela”. Não podemos também esquecer de relacionar o conceito de saúde individual com o meio ambiente.
No dia-a-dia, verificamos, na grande maioria das vezes, os profissionais de saúde tentando restabelecer a saúde, ou seja, cuidando da doença que já se estabeleceu no indivíduo. Raras são as iniciativas efetivas para se promover à saúde.
A cada dia, vemos surgir novas especializações médicas, voltadas para a realização de processos de tratamento complexos e onerosos, enquanto as ações de prevenção são, cada vez mais, desprezadas.
Vemos casos mais simples sendo conduzidos com exames complementares especializados, cada vez mais sofisticados. Os nossos doentes praticamente “exigem” que sejam realizados exames complementares, como uma forma de “compensação” à falta de atenção que lhes é dedicada pelos médicos, que nem olham para eles e, muitas vezes, nem ao menos os examinam. Ao final, como vemos frequentemente, os pacientes exibem os resultados dos exames complementares que conseguiram fazer como se fosse um troféu. Conseguir realizar um exame mais sofisticado tal como uma ressonância magnética, na maioria das vezes desnecessária, é o apogeu.
O Estado brasileiro responsável, constitucionalmente, pelo cuidado à saúde da população, também caminha na contramão, gastando muito, mas gastando mal, priorizando a saúde curativa, ou seja, “cuidando da doença”, ao invés de investir maciçamente nas ações de prevenção. Investir em doença é igual a cavar buraco: quando mais se cava mais fundo fica. A ação dos governos nos cuidados à saúde é, comparativamente, como se os bombeiros fossem treinados apenas para apagar incêndio, sem cuidar das ações preventivas.
E os “Planos de Saúde”? Qual a contribuição deles? Deveriam se chamar “Planos de Doença”, pois, a maioria, tem a atenção voltada para os cuidados à doença. Na prática, vemos as pessoas agindo “como se tivessem um plano para ficar doente” aguardando, apenas, escolher em qual especialidade irá adoecer, agindo como se “desejassem” a doença. E, se desejamos, teremos o que desejamos. Às vezes, esse desejo pode demorar para acontecer e até nos esquecermos de que o desejamos anteriormente, quando ele, efetivamente, acontece. Nós esquecemos, porém o nosso cérebro continua “trabalhando” em cima do desejo que foi feito a ele, até que ele se realize.
São os nossos desejos ou nossos pensamentos que traçam os caminhos das nossas vidas, dessa forma definindo se teremos a alegria ou a tristeza, a saúde ou a doença ou ainda outras escolhas que fizermos. É “a lei da ação e reação”. Se entramos em um caminho que segue em direção à doença, não encontraremos outra coisa. É necessário refazer o caminho e começar tudo de novo em nova trilha, em direção à saúde.
A nossa mente executa os comandos que lhe passamos. Conhece aquele ditado que diz que “quem semeia vento colhe tempestade”, pois bem, assim é a nossa vida. Se pensarmos coisas ruins, atrairemos coisas ruins para nós mesmos. Se carregamos o nosso “computador cerebral” com “programas” ruins, o trabalho final executado só poderá ser um resultado ruim. O pensamento positivo, a fé e o otimismo são os melhores remédios.
 
Manoel Nascimento Rocha é médico e escritor (CRM ES 2527)
           
 

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